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Com a globalização da economia, as relações
entre capital e trabalho estão alcançando um estágio mais de parceria
do que de confronto ou antagonismo. Vejamos a trajetória de evolução
destas relações.
Os movimentos trabalhistas que se fortaleceram na Europa desde meados
do século XIX adquiriram uma dinâmica de confronto com o capital, pois
estavam fortalecidos na sua tendência fortemente exploradora, tanto
no decorrer da primeira Revolução Industrial, em todo século XIX, com
as longas jornadas do trabalho nas minas como também no decorrer de
quase toda Segunda Revolução Industrial, com as também longas jornadas
de trabalho nas linhas de montagem.
Não foram somente as novas tecnologias que abriram caminho para o grande
sucesso da Segunda Revolução Industrial no século XX, pois na década
de 20, com Henry Ford, a organização do trabalho fabril sofre uma revolução
com o desenvolvimento e implantação do sistema de linha de montagem.
A contribuição deste sistema foi muito significativa para aumentar a
produtividade do trabalho, uma vez que o trabalhador permanece fixo,
enquanto uma correia transportadora move os componentes. Assim, este
sistema especializou os operários na realização das operações simples
e repetitivas, eliminando a necessidade de habilidades especiais, com
baixos custos de treinamento da mão-de-obra, e gerando elevação significativa
da capacidade de acumulação de capital.
Portanto, as novas tecnologias e a organização fordista estruturam a
economia industrial do século XX com o aumento da produtividade do trabalho
sem a necessidade de capacitá-lo intelectualmente, aumento dos salários
com a participação ativa dos sindicatos fortes acirrando o conflito
entre capital e trabalho, acumulando capital com a ampliação da capacidade
produtiva e a expansão do mercado consumidor com novas linhas de produtos
com elevados coeficientes de elasticidade preço e renda.
Em conseqüência da contínua expansão do volume de excedente econômico
e da revolução tecno-científica, alterou-se o panorama produtivo mundial,
basicamente nas décadas de 1960/70. Os fundamentos desta nova era industrial
que estamos vivenciando hoje repousam sobre a emergência de tecnologias
que estão deslocando o núcleo de acumulação de capital, marginalizando
as indústrias tradicionais. Estas indústrias desta nova era (3. Revolução
Industrial) caracterizam-se pela intensa aplicação da ciência e do conhecimento
na elaboração de novos produtos. Ao contrário dos ramos tradicionais,
a condição essencial para seu desenvolvimento é a presença de centros
de pesquisas e mão-de- obra altamente qualificada.
Em decorrência, a meta fordista da redução de custos de produção e preços
dos produtos, a través da contínua ampliação da escala de produção está,
rapidamente, sendo substituída pelo aperfeiçoamento tecnológico dos
produtos e pela incorporação de maior valor agregado a cada nova versão.
E também as operações produtivas repetitivas automatizam-se com a substituição
da mão-de-obra desqualificada por robôs industriais.
Muda-se, portanto, o perfil do emprego e apresenta-se um alarmante quadro
de desemprego, de tal forma que, muito provavelmente, a redução da jornada
de trabalho, a limitação das horas extras e o contrato temporário de
trabalho não são capazes de superá-lo, apesar de que são medidas necessárias
para amenizar as perturbações sociais geradas pelo desemprego, uma vez
que o problema é estrutural.
Sabe-se que as verdadeiras alternativas para a solução do desemprego
estrutural passam por um novo direcionamento da ação profissional, via
processo educacional formal e capacitação profissional, uma vez que
o mercado de trabalho terá, cada vez mais, novas características.
Assim, precisa-se entender porque o trabalhador vem perdendo todas as
garantias conquistadas em movimentos reivindicatórios desde o século
XIX.
O trabalho na nova empresa, com a nova tecnologia de processos e produtos,
passou a assumir posição de destaque na nova relação capital/trabalho.
Em decorrência, o investimento em pessoas passou a ser cada vez mais
importante e necessário uma vez que, para as empresas inseridas na indústria
de ponta, a sua maior riqueza está na qualidade do elemento humano que
possui. Assim, neste segmento produtivo, rica é a empresa que tem cérebro:
é a economia do conhecimento.
Devido ao elevado estoque de capital humano que as empresas modernas
possuem, passou-se a uma mudança nas relações capital/trabalho, de uma
linha administrativa autoritária - pois tinha o capital como centro
do processo decisório - para uma administração participativa, devido
à parceria entre capital físico e capital humano, que está se consolidando
e mudando o perfil da administração.
Estas diferentes possibilidades de composições qualitativas entre capital
físico e capital humano alteram, evidentemente, a produtividade do fator
trabalho de indústria para indústria ou de país para país. Em decorrência,
reside-se aí um grande erro que muitas pessoas cometem ao compararem,
neste processo de globalização, a remuneração da mão-de-obra nos EUA,
Japão ou Alemanha com o Brasil e, em seguida, afirmarem que o custo
da nossa mão-de-obra é significativamente inferior ao daqueles países
e que não se pode transferir ao peso do custo de nossa mão-de-obra a
baixa competitividade da indústria brasileira e, por isso, a redução
dos encargos trabalhistas não contribuirá para o aumento de competição
de nossa indústria, pois a remuneração da nossa mão-de-obra já é inferior
a daqueles países.
É bom ressaltar que, ao se fazer este tipo de comparação, incorre-se
num grande erro, pois elas não são comparáveis: não se pode comparar
o salário/hora médio brasileiro com o salário/hora médio japonês, pois
a capacidade de produção destes dois trabalhadores é totalmente diferente,
devido a composição qualitativamente diferenciada da relação capital/trabalho.
Assim, a legislação trabalhista brasileira deve moldar-se e flexibilizar-se
às necessidades da consolidação de nosso processo de modernização e
da conquista de espaço progressivamente significativo na economia mundial
neste processo de globalização.
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